A régua que não mede

No terceiro período da pré-escola, minha mãe percebeu que eu não estava preparado para passar de ano. Eu ficava triste porque eu não conseguia ler nem fazer continhas básicas, e a maioria dos meus colegas conseguia. Mesmo assim, a escola queria me passar para a primeira série. Disseram que eu aprenderia no meio do caminho. Minha mãe foi irredutível, e ela me fez repetir de ano.


No ano seguinte, eu aprendi a ler e fui o orador da minha nova turma. Anos depois, também fui medalhista de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática (OBMEP). Nesse processo, eu aprendi novas habilidades e ganhei confiança. Entendi que eu era capaz, só precisava de mais tempo para aprender algo novo.


Os desafios da escola pararam de ser um pesadelo e passaram a me encantar porque eles passaram a me desafiar de forma mais coerente. A régua da escola deixou de ser muito comprida para mim. No entanto, ao longo da minha vida escolar, deparei-me com diversos colegas com a régua desregulada: eram estudantes desinteressados e desmotivados porque não conseguiam se adaptar com a forma padronizada de ensino e avaliação.


Medir para entender a individualidade

O objetivo de medir é obter dados para tomar decisões assertivas. Quando não se mede, não se sabe o que e como deve ser ajustado. Se o mesmo direcionamento e cobrança forem utilizados para todos os estudantes, alguns vão se sentir interessados e desafiados, mas outros, certamente, ficarão desmotivados.

Não deveríamos utilizar a mesma régua para todos alunos. Cada estudante é único, com conhecimento prévios, interesses e talentos próprios. Cada um também responde de forma única a estímulos de aprendizagem. Por isso, o ensino deve ser personalizado, de forma a promover o desenvolvimento acadêmico de forma individualizada, respeitando os talentos e limitações de cada um.


O atual modelo de ensino cobra todos os alunos da mesma forma. Deveríamos entender qual o melhor estilo de aprendizagem de cada estudante (livro, jogos, exercícios, vídeos, apresentações) e medir o nível de proficiência em um determinado conteúdo ou habilidade para que, posteriormente, utilizássemos esses dados para estimular o aprendizado do estudante de forma individualizada.


Educação sob medida


O ensino personalizado precisa deixar de ser visto como luxo para se tornar acessível, por meio da tecnologia. A aprendizagem diferenciada e adaptativa combina ciência cognitiva, inteligência artificial e análise de dados, permitindo que o aluno aprenda o que ele precisa aprender no nível de dificuldade apropriado para ele.


A personalização do ensino vai além de se utilizar bem a tecnologia, ela busca entender como despertar o interesse do estudante e dar autonomia para que ele se desenvolva novas habilidades, de forma coerente e intencional. Não podemos estabelecer uma régua e acreditar que o certo é que todos alcancem essa referência. Precisamos entender a individualidade de cada aluno. Caso contrário, grandes traumas podem ser gerados.


Régua personalizada


A régua da escola precisa ser personalizada, e não padronizada. O tamanho do desafio e da cobrança devem ser proporcionais ao nível de proficiência do estudante na habilidade que está sendo desenvolvida.


Não faz sentido ainda continuar medindo o aprendizado de todos os alunos da mesma forma, já que hoje não queremos mais capacitar estudantes de forma padronizada para se tornarem trabalhadores que desempenhem funções repetitivas. A régua que fazia sentido no século XX já está quebrada.


Hoje, precisamos formar cidadãos com mentes conscientes, críticas e pensantes para que resolvam novos problemas de uma sociedade que está em constante mudança.

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